Os estudantes universitários se revezaram na remoção de cacos de ossos amarelados de uma trincheira entre as lápides do cemitério da cidade de Falfurrias (Texas). Os voluntários estavam no local para ajudar a exumar os restos de imigrantes não identificados que foram enterrados próximo do tem sido o trecho mais movimentado da fronteira usado para travessias ilegais nos últimos anos: o Vale do Rio Grande.

Os estudantes encontraram 15 corpos, mas provavelmente havia mais. “Eles apenas os enterraram onde quer que tivessem espaço”, disse Kate Spradley, uma antropóloga da Universidade Estadual do Texas que liderou a equipe de cerca de 35 estudantes e vários professores.

Até recentemente, os enterros eram tratados por uma funerária local e os túmulos eram aleatórios e aparentemente selecionados, também, aleatoriamente.

Enquanto o número de famílias imigrantes que atravessam a fronteira para reivindicar asilo cresceu nos últimos anos, as travessias ilegais caíram significativamente, com menos pessoas tentando fugir da Patrulha da Fronteira.

No ano passado, a Patrulha da Fronteira capturou 396.579 imigrantes que cruzavam ilegalmente a região, o que significa uma queda de 44% em relação a uma década atrás. Enfrentando críticas por direcionar os imigrantes para rotas mais perigosas, a agência de imigração intensificou os esforços de resgate.

Esses fatores parecem ter levado a uma diminuição nas mortes de imigrantes. No ano passado, a Patrulha da Fronteira registrou 281 mortes ao longo de toda a fronteira, em comparação com 451, cinco anos antes, e 385 uma década atrás. No mês passado, 32 mortes haviam sido relatadas desde o início deste ano fiscal, em outubro do ano passado.

O número de corpos enterrados encontrados na região também diminuiu nos últimos anos, caindo de 129, em 2012, para 50 no ano passado. Mas, como os imigrantes eram frequentemente enterrados em sepulturas não marcadas nos cemitérios rurais do sul do Texas, os voluntários continuavam a exumar corpos enterrados anos atrás.

Falfurrias tem sido uma armadilha mortal para os imigrantes. Cerca de 70 milhas ao norte da fronteira, é o lar de um dos poucos postos de controle da Patrulha da Fronteira, obriga imigrantes a atravessar pelo Vale do Rio Grande. Contrabandistas deixam os imigrantes ao longo da rodovia ao sul do posto de controle, com promessas de buscá-los ao norte.

A Patrulha de Fronteira e os defensores dos imigrantes tentam ajudar os que ficaram presos na região, acrescentando balizas de resgate, estações de água e – mais recentemente – cartazes com coordenadas para ajudar a encontrar pessoas que ligam para o 911 para obter ajuda. Mas ao longo dos anos, muitos ainda se perderam, ficaram feridos ou desidrataram e morreram.

Como muitos dos 254 condados do Texas, Brooks County, onde Falfurrias está localizada, não tem um médico legista. Assim, durante anos, uma funerária local cuidou dos enterros até que o Centro de Direitos Humanos do Sul do Texas, sem fins lucrativos, e outros defensores pressionaram o estado a pagar pelos corpos que seriam levados ao médico-legista em Laredo para autópsia.

O médico legista submete amostras de ossos à Universidade do Norte do Texas para testes de DNA, e armazena corpos até que sejam identificados.

Dos 200 corpos, 31 foram identificados, metade através do banco de dados de DNA, metade trabalhando com defensores internacionais das famílias dos desaparecidos. Os imigrantes eram de El Salvador, Guatemala, México, Honduras, Equador e Nicarágua, disse Spradley. Os restos mortais são entregues às famílias para enterro com ajuda dos consulados locais.

Na semana passada, voluntários procuraram no cemitério possíveis locais de sepultamento, comparando registros do xerife, informações de jardineiros e moradores. Eles usaram um radar de penetração no solo para escanear os restos, provavelmente amarrados e enterrados na terra, peneirando cautelosamente a sujeira para encontrar até ossos pequenos.

“Isso está mandando alguém para casa, dando paz de espírito a sua família”, disse Kim Wile, 39, uma veterana da Texas State University.

Mais de 60 pessoas contataram o Centro de Direitos Humanos do Sul do Texas no mês passado em busca de membros de suas famílias, a maioria homens mexicanos, alguns da Nicarágua, segundo o fundador Eddie Canales.

Alguns dos corpos foram enterrados em sacos de cadáveres rotulados em 2005. Outros tinham sido envolvidos em plástico já em decomposição. A professora espera voltar ao cemitério para novas pesquisas, dependendo do financiamento do estado, da Cruz Vermelha Americana, da Academia Americana de Ciências Forenses e de fundações privadas. “Mesmo que alguém não esteja procurando por essas pessoas agora, achamos que há uma geração de famílias que aprenderão sobre a tecnologia do DNA e vão querer saber mais”, finalizou Spradley.

Fonte: Redação Braziliantimes