Popularidade de Obama cai entre os latinos

Pesquisas indicam que hispânicos estão decepcionados com a decisão do presidente de adiar ordens executivas.

Menos de um mês depois que o presidente Obama anunciou que adiaria o uso de ordens executivas para resolver a questão imigratória, cresce a suspeita de que a decisão trouxe prejuízos para a base democrata.

Ativistas da causa imigratória em estados-chave dizem que está cada vez mais difícil registrar eleitores latinos que poderiam votar nos democratas, por causa da insatisfação com a decisão.

As pesquisas também têm indicado que a popularidade de Obama e dos democratas vem caindo mais entre a população hispânica que entre a população em geral. Um grupo lançou até mesmo uma campanha contra quatro senadores democratas que apoiaram uma proposta do GOP de barrar qualquer tentativa de ordem executiva do presidente com relação à imigração.

“O presidente não nos ajudou”, disse o ativista Leo Murrieta, que trabalha registrando eleitores latinos no Colorado para a organização Mi Familia Vota. “O povo está desapontado. Eles queriam ação, atividade, movimento.”

Com tantos candidatos em tantas disputas apertadas este ano, os democratas não podem se dar ao luxo de desprezar qualquer apoio. Mas Murrieta e outros acreditam que só a ação – e não uma promessa de agir – reverteria a decepção entre os hispânicos, a apenas cinco semanas do dia da eleição.

Obama deve falar na noite de terça-feira, durante o baile de gala promovido pelo Congressional Hispanic Caucus. Será a sua primeira aparição no grupo, depois de três anos. O discurso deverá incluir uma menção ao compromisso com a reforma imigratória e a promessa de “consertar o nosso sistema imigratório tanto quanto eu possa fazer sozinho”, de acordo com um assessor.

Fora dos salões do baile, entretanto, dezenas de manifestantes vão esperar o presidente e parlamentare convidados, alegando uma “brutal traição” aos latinos, de acordo com os organizadores do protesto. Dentro do salão, Obama vai estar entre os mais irritados com a própria decisão de esperar.

“Não esperaríamos até depois de novembro se isto fosse um assunto que afetasse a comunidade LBGT”, disse o deputado Luiz V. Gutierrez (D-Ill), crítico feroz da política imigratória de Obama, numa entrevista dada na quarta-feira (1º). “Se isto fosse sobre os direitos reprodutivos femininos, se fosse sobre o salário mínimo, se fosse sobre qualquer outro assunto, o Partido Democrata estaria junto em torno dele.”

O deputado Joaquin Castro (D-Tex.) disse que a frustração é generalizada. “Muita gente vê isso como uma manobra política, mas as pessoas veem também que há muita gente que está sofrendo por causa da falta de ação.”

O Secretário do Trabalho (Labor Secretary) Tom Perez, cotado para ser o próximo Procurador-Geral de Obama, tentou acalmar os descontentes numa entrevista na quarta-feira, mas a mensagem não surtiu efeito.

“A questão da ordem executiva, meus amigos é “quando?”, disse Perez. “Imigração faz parte de seus valores e de sua liderança. Por isso adoro trabalhar para este presidente,” acrescentou.

Seria o tipo de afirmação que arrancaria aplausos de uma plateia amistosa. Mas não foi o caso, e ninguém aplaudiu.

Obama já estava sofrendo com o descontentamento dos hispânicos com relação à sua política imigratória mesmo antes da sua decisão de adiar as medidas que implantaria através de ordens executivas para agir. De acordo com uma pesquisa do Washington Post feita em julho, Obama tinha 68% de aprovação entre os hispânicos com relação à política imigratória. Em setembro, este número havia caído para 42%.
De 2012 para 2013, a aprovação do governo caiu de 75 para 52% entre os hispânicos, de acordo com a Gallup.

Maria Teresa Kumar, presidente da Voto Latino, um grupo apartidário que procura registrar eleitores latinos, disse numa entrevista que apesar dos problemas os latinos têm que comparecer às urnas em número recorde este ano, para lembrar a Obama, seu partido e aos republicanos, que eles querem uma solução para o problema imigratório.

“Enquanto nosso objetivo for somente tentar provar que somos organizados, […] sempre ficaremos em segundo plano,” disse. “E vai chegar um ponto em que a culpa será apenas nossa.”

Longe de Washington, os ativistas sofrem para convencer os céticos.

Em um dia movimentado, Murrieta e sua equipe correm atrás de possíveis eleitores em lojas, escolas e pontos de ônibus, em Denver e Pueblo, no Colorado. Murrieta disse que a média de adesões desabou de uma dúzia por dia, antes da decisão de Obama, para somente três diárias nas últimas semanas.

“Menos pessoas estão dispostas a falar sobre eleições,” disse. “Temos de ser mais criativos para encontrar uma forma de convencer as pessoas sobre a importância disso.”

Resistência similar é encontrada no Arizona, diz Raquel Teran, que lidera uma equipe de 35 pessoas, que percorrem Phoenix e Tucson em busca de novos eleitores.

“Se [Obama] tivesse agido antes das eleições seria muito mais fácil,” diz. ‘Muitos na comunidade latina estão esperando como vai terminar esse debate.”

Alguns ativistas estão encorajando os latinos a não votarem numa eleição-chave: a corrida ao Senado.

Presente.org, um grupo pelos direitos latinos sediado em Los Angeles, que alega ter 250 mil membros em todo país, está encorajando os associados de quatro estados a não votarem para reeleger os senadores democratas Mark Pryor (Ark.), Mary Landrieu (La.), Jeanne Shaheen (N.H.) e Karl Hagan (N.C.). Esses estados reúnem cerca de 330 mil eleitores latinos – um número pequeno, mas suficientemente crítico para decidir disputas mais apertadas.

Esses quatro senadores, e mais o senador Joe Manchin (D-W.Va.), votaram junto com os republicanos numa tentativa do GOP de bloquear o programa de Obama que visa dar status legal temporário para as centenas de milhares de filhos de imigrantes ilegais que chegaram aos EUA ainda pequenos.

A Presente.org – especialista no uso da mídia social e mensagens de texto na propagação das ideias – está usando anúncios microdirecionados no Facebook para avisar membros no Arkansas, Louisiana, New Hampshire e North Carolina que aqueles senadores votaram ao lado de republicanos “na tentativa de derrubar a ordem executiva de Obama que trouxe alívio para os imigrantes.”

“De modo algum estamos dizendo para que votem nos republicanos, estamos apenas pedindo que votem em branco nesse item,” diz Arturo Carmona, diretor executivo de Presente.org. Em vez de votar para senador, “Há muito mais coisas importantes na cédula para se preocupar,” conclui.

Democratas responsáveis pelas camapanhas não responderam ao pedido de declarações do Washington Post. Outros ativistas disseram que o boicote não deve causar muito impacto.

“Não vai funcionar. É meio agressivo demais,” diz Ben Monterroso, diretor executivo de Mi Familia Vota..